O prazer do inédito
#29 - o quanto temos vivido a busca por experiências imprevisíveis?
Muita coisa tem acontecido por aqui em termos de vida social nos últimos tempos. Na verdade, sempre esteve acontecendo — parece que a vida pulsa de um jeito diferente por aqui. Eventos, festivais, encontros e comemorações surgem quase sem fim, a todo momento.
Outro dia, após uma semana intensa de saídas, eu voltava para casa depois de uma comemoração, feliz por estar chegando antes das 22h. Ao pisar na nossa rua, bem em frente de casa, me deparei com um festival de vinhos. A rua estava em festa, com várias tendas oferecendo degustações de vinhos e comidas típicas, além de música e um público vibrante. Naturalmente, decidimos ficar. A noite seguiu em uma mesa longa, repleta de pessoas que eu nunca tinha visto antes, saboreando hambúrgueres, e terminou com a gente dançando na pista de dança, que era basicamente o pátio de baixo da nossa casa, com nossas taças de vinho nas mãos.
Não é uma coincidência pontual: nos quase seis meses em que estou vivendo em Barcelona, não houve um único fim de semana ou dia de semana — ou ambos — em que eu não me deparasse com algo acontecendo. O auge social parece estar sempre em alta. Quando procuro eventos, encontro milhares, e quando não procuro, eles simplesmente aparecem. Do Cinema Público na beira da praia durante o verão, ao Dia do Chapéu (Día del Sombrero), em que todos saem com chapéus extravagantes e divertidos na rua para marcar o início da primavera, ao dia em que as pessoas trocam rosas e livros como forma de amor e cultura (Diada de Sant Jordi), até o Halloween ou o Dia dos Mortos, com ruas cobertas por lojas, pessoas e lugares com fantasias macabras.
Está sempre vibrando de todas as formas possíveis. E isso que não mencionei nem de perto todos os eventos que presenciamos. E, para além desses, há cursos que frequentei, encontros, locais, bares, aulas, jantares…
Todas essas descobertas, tanto casuais quanto intencionais, vêm acompanhadas por encontros com lugares desconhecidos, ideias e pessoas novas. São tentativas de me abrir para me inserir mais profundamente, de compreender melhor onde estou e com quem posso estar. E isso, de certa forma, tem despertado algo interessante em mim.
Talvez tenha me mostrado que não é apenas a cidade que pulsa de um jeito diferente aqui. Eu também estou pulsando. Afinal, toda essa agitação na minha vida social diz tanto sobre mim quanto sobre a própria cidade.
Talvez sejam essas experiências que têm me feito perceber como é bom cultivar uma energia social, com aquele olhar curioso e a mente aberta, algo que parece ser mais natural na juventude ou quando a vida ainda não se estabilizou completamente. Com o tempo, sinto que vamos deixando isso de lado por comodismo, estabilidade, segurança ou até preguiça. Ou, talvez, por conta de conexões mais virtuais. Mas toda essa intensidade, mesmo que demandando energias extras, tem me feito reavaliar o lado delicioso de estar aberta ao novo.
Será que, depois de adultos, devemos realmente deixar esse lado tão de lado?
Sem dúvida, uma mudança de país traz à tona esse lado de forma bem intensa. Tal intensidade, que a longo prazo nem me parece tão saudável, mas que agora me desperta a reflexão sobre como manter esse lado vivo com intenção. Viver esse lado social ora com doses maiores, ora com doses menores, mas sempre presente. Equilibrando essa energia para que possamos manter o potencial de novas conexões e descobertas, sem deixar que ela se apague.
E, desdobrando essa reflexão, podemos ampliar para além de uma socialização com pessoas, mas também para abertura da mente para novos lugares, ideias, experiências e até mesmo para pequenas transformações no nosso dia a dia. Talvez seja mais sobre cultivar a curiosidade e a abertura para o novo em todas as suas formas, sem deixar que esse aspecto tão gostoso e instigante das nossas vidas seja engolido pelo automático de uma vida certeira demais.
Até porque aquela inocência de viver, conhecer e aprender, repleta de leveza, descobertas e diversão, parece se dissipar à medida que crescemos.
E, por vezes, no automático dos compromissos e das tarefas da vida adulta, no percurso de uma rotina onde achamos que já sabemos tudo, esquecemos a delícia de sentir esse olhar curioso e vibrante para o mundo pulsar novamente.
Colocar-se em situações que exigem aquele esforço extra para fazer, aquela atenção extra para observar, mas que têm o potencial de proporcionar um friozinho na barriga ou um conhecimento que nem sequer imaginávamos. Em maior ou menor grau, isso exige um desprendimento do conforto conhecido, uma disposição para sair da zona de conforto em busca de experiências imprevisíveis. É preciso se abrir para o novo, lidar com o incerto, sem a garantia de que o retorno será imediato ou fácil.
Mas talvez seja justamente entre encontrar o equilíbrio entre o conhecido e o desconhecido que mantemos viva a magia das conexões, da troca genuína e do prazer de descobrir novas formas de estar no mundo. Parece que isso traz aquele brilho que às vezes falta. E, por mais que esses momentos nos desafiem, nos tirem da rotina e nos coloquem fora da nossa zona de conforto, são justamente eles que nos permitem olhar para o mundo com olhos mais curiosos, mais atentos.
E quem sabe tudo isso nos mostre como o que nos cerca pulsa de tantas formas — mas que, internamente, podemos pulsar ainda mais.
"Shoshin" (初心), em japonês, é a mentalidade de iniciante. E, enquanto escrevia essa newsletter, me deparei com essa menção feita pelo Matheus Macêdo no livro Os 4 Pilares da Saúde, onde, ao falar sobre movimento, ele sugere que devemos evoluir sem nos prender à busca por sermos especialistas. Talvez seja um pouco disso que quero trazer para a vida: cultivar esse olhar de iniciante, permitindo que a vida me surpreenda e que eu me lance às novas experiências com aquele friozinho na barriga — aquela curiosidade e aquele encanto mescladas ao um leve desconforto.
Até mais,
Luiza


